Todo dia é nosso dia

 Sempre fui muito chata com determinações impostas sem explicação convincente. Não entendia por que, enquanto meu irmão era judoca, eu não podia praticar o mesmo esporte. Não entendia por que certas brincadeira eram só de meninas ou só de meninos. Quando meu professor disse que era impossível contar até um milhão, comecei a contar um pouquinho todo dia pra provar que ele estava errado. Nunca descobri a resposta porque, depois de uns meses, cansei.
 Isso não quer dizer que, mesmo sendo de uma família/cidade/galáxia majoritariamente de direita, nasci sendo de esquerda, feminista e ativista. Na verdade, até fui de direita por um longo tempo, afirmando que “esse negócio de igualdade” impedia que as pessoas crescessem. Já disse que Bolsa Família e cotas eram propostas idiotas. Já fiz redação concordando com pena de morte. Discuti com o tal professor que falou da impossibilidade de contar até um milhão (um dos mais incríveis e pacientes professores do universo!) falando que o socialismo era uma utopia e que quem acreditava nisso era, no mínimo, muito iludido. E nem faz tanto tempo assim. 
 Conheci o feminismo no comecinho de 2013. Li um pouquinho e achei que era a coisa mais incrível do mundo. Até que descobri que as feministas eram a favor da legalização do aborto. Isso foi mencionado por um professor que as chamava de assassinas. E com razão, né? Porque essa era a ideia mais maluca que eu já tinha ouvido. Como assim liberdade feminina? Meu corpo, minhas regras coisíssima nenhuma. Achei uma palhaçada sem tamanho e parei de sequer ler sobre o assunto.
 Uns meses depois, encontrei um blog (o Escreva, Lola, Escreva) que falava de feminismo em mais áreas do que eu imaginava que fossem afetadas pelo machismo. Foi um choque pra mim, a garota que já tinha feito uma colega de classe chorar dizendo que ela era uma vadia e ia morrer sozinha (se você estiver lendo isso, me perdoe! Eu fui uma babaca!), que a ideia de que mulher tem que se “dar o respeito” era machista. Uéeee, mas não é assim que as coisas são no mundo?
 Perai, quer dizer que quem usa roupa curta não tá dando abertura pra assédio e estupro? Quer dizer que não existe esse negócio de ser feminina? Foi tudo uma invenção? É meio assustador descobrir que tudo em que você sempre acreditou era uma grande mentira do patriarcado criada justamente para oprimir. Ainda me levou um bom tempo para que eu superasse o nojo de menstruação e um bando de outras manias horríveis. Se alguém voltasse no tempo e me dissesse que, durante as eleições, eu estaria usando broche de Dilma e colando adesivo até na testa, eu ia questionar a sanidade da pessoa.
 A desconstrução não acaba nunca. Porque mesmo pra quem nunca achou que homossexualidade fosse pecado, há muitas coisas que nos foram impostas e que estão completamente erradas. Desconstrução de conceitos racistas, elitistas e de mais um monte de coisa que nem sabemos que é preconceito até que alguém grite na nossa cara. O feminismo foi, para mim, a abertura para isso. Considero o movimento como um divisor de águas na minha vida. Quem diria que um bando de mulheres revoltadas e reclamonas seriam capazes não só de fazer com que eu me tornasse uma delas, mas também de me mudar completamente?
 É para isso que o dia de hoje serve. Não para distribuir flores, chocolates e presentes. Não para sermos parabenizadas. Mas, para reforçarmos nossa luta. Para lembrarmos de quem luta diariamente para a conquista dos direitos que ainda nos faltam. Para agradecermos ao ativismo de internet que, apesar de ser considerado inferior ao do das pessoas que vão à rua, muda a vida de uma porção de gente diariamente.
 Para agradecer a quem faz marcha, a quem protesta, a quem grita. E a quem senta e explica, calmamente – ou nem tanto assim – como é que as coisas são. A quem tira nossas dúvidas, mesmo que elas soem muito primárias. A quem, mesmo sem paciência, repete mais e mais vezes o que é certo e o que é errado. A quem gasta o tempo escrevendo uma postagem gigantesca no Facebook ou em um blog problematizando algo.
 É um dia para lembrar de quem é assediada todo dia no caminho do trabalho. De quem sofre com violência doméstica. De quem foi assassinada. De quem já teve que enfiar uma agulha de crochê no útero para abortar o bebê de quem não pode cuidar. De quem se pesa várias vezes durante o dia e de quem vomita depois de cada refeição. De quem sofre com gaslighting. De quem tem é alvo de lesbofobia e de racismo. De quem tem que se submeter a acusações gordofóbicas.
 A nossa luta não acabou, não está nem perto do fim. A nossa luta continuará amanhã e depois e, provavelmente, por mais vários anos. A nossa luta acontece todos os dias.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s