Arquivo S: Que horas ela volta?

Desde que eu soube da indicação do filme Que horas ela volta? para representar o Brasil na categoria de filme estrangeiro do Oscar, fiquei morrendo de curiosidade de assistir. E aí que, depois de ler um monte de textos elogiando a obra, finalmente matei essa vontade e pude me juntar à legião de pessoas apaixonadas por essa produção maravilhosa.
 Apesar de gostar muito do título brasileiro, acho que o em inglês também representa muito a trama: Segunda mãe. Porque além de criticar toda a estrutura de trabalho doméstico no Brasil, a obra faz alusão ao fato da posição materna que as empregadas assumem diante dos filhos das famílias pras quais trabalham. Essa mulheres são, muitas vezes, responsáveis por grande parte da formação das crianças das quais cuidam.

ENREDO
 O filme, escrito e dirigido por Anna Muylaert, é protagonizado por Val (Regina Casé), uma pernambucana que se muda para São Paulo para trabalhar como empregada doméstica, onde se firma com uma família de classe média, em cuja casa mora e trabalha integralmente.
 Treze anos depois de decidir sair do estado de onde veio, Val recebe uma ligação da filha que pretende se mudar para a capital paulista, afim de prestar vestibular.
 A família para qual ela trabalha aceita prontamente receber Jéssica (Camila Márdila), afirmando que ela pode ficar “por tanto tempo quanto desejar”, mas isso muda quando a garota se recusa a obedecer a determinações que a inferiorizam.


AVALIAÇÃO GERAL
 A obra é uma representação perfeita e delicada do relacionamento estabelecido entre empregas domésticas e patrões de classe média, que é baseado numa hierarquia disfarçada de empatia. Apesar de ouvir que é “praticamente da família”, Val – a exemplo de várias outras mulheres brasileiras – tem que se contentar com um quartinho minúsculo e muito inferior ao dedicado aos hóspedes, se privar de comer certas coisas que são preferidas pelos patrões e atender a pedidos exagerados.
 É fácil se perder com o objetivo de retratar essa situação e acabar exagerando na medida, tornando a situação caricaturesca, mas Anna Muylaert passa longe disso. Dosando bem as cenas carinhosas entre a empregada e o filho da família com o tratamento que ela recebe do casal.
 Isso fica ainda mais evidente com a presença da filha dela, que se recusa a aceitar limites extremos que não apresentam explicações lógicas. Por que ela não pode se sentar à mesa? Por que tem que tomar aquele sorvete e não esse? Por que tem que se contentar com o quarto pequeno e abafado quando existe um bem mais espaçoso que está desocupado?


ELENCO
 Tive uma resistência inicial com aquela repetição de sempre da atriz do sudeste que faz um sotaque forçado pra representar um personagem nordestino. O que custa contratar uma atriz que seja realmente do lugar? Entendo que, só de ser associado ao nome da Regina Casé, o filme já receba um novo olhar, mas as nossas atrizes são tão boas quanto ela e só não têm reconhecimento porque a indústria não permite.
 Mesmo assim, gostei muito da atuação e achei que o papel combinou com o que ela tinha a oferecer. O sotaque não é lá muito convincente e o mainha sempre parece exagerado ao sair da boca dela, mas fora isso achei que ela teve uma sensibilidade maravilhosa que combinou com a sutileza da obra.
 Camila Márdila também teve uma atuação incrível. A ideia inicial da diretora era de ter uma atriz pernambucana pra interpretar a personagem, mas acabou mudando de ideia (por quêeee?) e escolhendo a brasiliense. O probleminha do sotaque também acontece, mas, como a própria Anna disse, ela conseguiu transmitir a secura que a Jéssica tem de uma forma brilhante.
 Outra que eu gostei muito foi a Karine Teles. Pra mim, a melhor forma de avaliar uma antagonista é prestar atenção em quantas vezes tenho vontade de entrar no filme e implorar pra que ela deixe de ser tão petulante/irritante/qualquer outro adjetivo que a descreva e isso aconteceu milhares de vezes com a Bárbara, personagem interpretada por ela.


OPINIÃO FINAL
 Apesar de ter um tema tenso e dramático, a obra é extremamente sutil, além de ser detentora de um ritmo muito agradável que permite que a dinâmica nunca morra. O ar de humor permanece no ar e em momento algum diminui o impacto da crítica feita.
 Esse filme é extraordinário e dá no público o tapa na cara de que tanto precisávamos. Dá vergonha de saber que não é nada ilusório, de que é exatamente desse jeitinho. Vivi a vida inteira com uma empregada em casa e pude me identificar com mais cenas do que gostaria. Do que deveria.
 É o tipo de obra que eu gostaria que passasse em todas as casas porque nós precisamos refletir sobre esse tema. E a Anna Muylart fez isso com uma maestria indiscutível. Cinco estrelas não são suficientes, esse filme merece cinco mil.

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