Educação sexual coletiva

[Essa é uma perspectiva centrada em relacionamentos heterossexuais porque achei que se encaixava mais com o padrão sexual heteronormativo]
“Então… isso foi sexo.”
 Um dia desses eu e uma amiga passamos a noite ouvindo músicas que eram famosas durante a nossa infância. Passamos por Rouge, KLB, Rebelde e Bruno e Marrone. Mas o que realmente ficou na minha cabeça foi uma música de Caju e Castanha. Lembro de ter visto muitas vezes a dupla se apresentar nesses programas de fim de semana, cantando sobre a semelhança da “mulher do amigo” com instrumentos musicais.
 A letra era engraçada e essa era a única coisa da qual eu me lembrava, até a ouvir novamente. E aí resolvi lançar o raio problematizador e falar sobre tudo que está errado não só com essa música, como com toda a educação sexual coletiva que recebemos da mídia.
 A primeira coisa que me incomoda é o conceito de mulher de alguém. Acho bizarro e quase assustador usar mulher como se a palavra denotasse um sentido de relacionamento e de posse. Não se fala do homem de alguém, nem de esposa e homem, ou de ex-homem quando há separação. Mas é sempre marido e mulher, ex-mulher e a mulher de fulano. É o tipo de coisa que acontece tanto que dificilmente paramos para analisar e perceber que é, no mínimo, estranho.
 E aí tem toda a objetificação da mulher durante a letra inteira. Isso já dá pra perceber logo de cara porque, ao falar sobre a sexualidade feminina, o homem é representado como protagonista e a mulher como “instrumento musical”, ou seja, um objeto inanimado que será usado de acordo com os desejos de quem o manuseia. Nem quero entrar no mérito de analisar cada uma das coisas que o cara propõe fazer com a mulher, mas só partindo dessa comparação fica fácil notar que tá tudo errado.
 Mas, isso não é tudo. Se fosse só uma música de sei lá quantos anos trás, tava tudo ótimo. O problema é que há várias letras que escutamos o dia todo que tem esse mesmo princípio: apresentar a mulher como objeto de desejo e o objetivo masculino de ter uma listinha com nomes femininos que servem como conquistas.
 O que assusta ainda mais é que sabemos o quanto a música entra na nossa cabeça. Uma coisa que Felipe Pena usa para provar a influência musical é comparar a dificuldade de resumir cinco livros precisamente – com o começo, meio e fim -, com a de cantar cinco músicas inteiras ou de sintetizar o que elas dizem. O arranjo musical torna muito mais fácil absorver as informações. Sendo assim, o que escutamos ao longo de nossas vidas tem influência na forma que pensamos.
 É claro que não é, necessariamente, um processo de alienação, porque podemos filtrar criticamente o que nos é útil e o que é dispensável, mas ainda assim essas composições funcionam como um reflexo cultural do que é pensado. Ninguém comporia uma música falando sobre embebedar mulheres afim de retribuições sexuais (ou seja: estupro) se não houvesse a cultura de fazer esse tipo de coisa.
 Além das músicas, ainda temos filmes, programas, revistas e regras implícitas que ditam essa postura sexual. Há produtos cujo único objetivo é vender o corpo feminino como uma mercadoria para satisfazer desejos sexuais. Há conceitos de que mulher é “para casar” e de que mulher é “para se divertir” sendo passados em rede nacional em tentativas falhas de fazer humor.
 É uma mão dupla. Ao mesmo tempo que se ensina aos homens que eles precisam ser “experientes” e que é da “natureza deles” serem seres sexuais compulsivos, justificando o adultério e enfatizando a masturbação, as mulheres aprendem que não podem ser puras demais ou serão chamadas de frígidas, mas também não podem expressar muito desejo sexual porque isso demonstra falta de caráter. Toda a criação do papel sexual feminino é voltada para agradar a um parceiro egocêntrico que está centrado no seu próprio prazer.
 Por isso tantas mulheres sexualmente frustradas, tanta mistificação em torno do orgasmo feminino e tantas travas inúteis que são colocadas. A mulher aprende que a primeira relação sexual vai doer, aprende que eventualmente vai ter que fingir o orgasmo, aprende que certas coisas só as mulheres que “não se dão o valor” fazem.
 É quase uma cultura de medo que se cria, o sexo visto como uma obrigação. E não é para ser assim. Não é para ter alguém cujas necessidades são colocadas em primeiro lugar ou a existência de um patamar elevado, é para ser algo mútuo, algo compartilhado.
 A sexualidade feminina não é uma lenda, não é uma invenção. É uma preocupação e é, especialmente, algo que precisa ser discutido e valorizado.
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