2º Festival de Cinema de Caruaru: Os curtas do primeiro dia + entrevista com Benedito Serafim

Sei que quem me acompanha no Snapchat (@opssteph) já me viu me derreter em elogios ao primeiro dia do festival, mas preciso comentar aqui também que foi maravilhoso. Toda a equipe é incrível e super atenciosa e os curtas escolhidos foram sensacionais.

 Para começar bem, a primeira mostra foi de direitos humanos e contou com curtas de todo o país. Para dar um gostinho de como foi, resolvi falar um pouco sobre o que foi exibido ontem.
O muro é o meio
O primeiro curta é de Edualdo Monção Jr e fala sobre a pichação como forma de expressão artística e ideológica. Como base para o documentário, ele usa os alunos da UFS que costumam pintar nas paredes as coisas pelas quais lutam.

 Dentre resistência à violência feminina, indignação com a falta de professores e de recursos e homenagens a uma funcionária que morreu no local, há muito a ser defendido e expressado por esses alunos que escolhem o choque como método de chamar atenção e de ser ouvido.
Dá pra assistir no Youtube e super recomendo para acompanhar uma visão diferente sobre essa forma de manifestação.

Uma família ilustre
 Com a direção de Beth Formagginiesse, esse curta também tem um aspecto documental e fala sobre a Operação Radar, que aconteceu durante a ditadura e que tinha o objetivo de dizimar os líderes do PCB.
É de uma secura brilhante ver a entrevista com Cláudio Guerra, ex-delegado da policia civil que foi responsável pela incineração de militantes do partido comunista. O atual pastor relata a crueldade do período de uma forma que chega a ser assustadora de tanta falta de empatia.
Num momento político em que há tanta discussão sobre intervenção militar, esse documentário é de uma importância gigantesca e todo mundo deveria assistir pelo menos uma vez.
Infelizmente, ainda não está na internet, mas provavelmente será postado até agosto do ano que vem.

Miguel
O filme de Natalia Grecco retrata a violência doméstica de uma forma cíclica fazendo uma ponte entre o filho que assiste a mãe ser violentada e o marido que se tornará repassando os mesmos conceitos.
Com uma fotografia e uma trilha sonora que são as coisas mais graciosas do universo, o curta passa a mensagem de uma forma muito legal e cumpre muito bem o papel de alertar para como essa violência cria uma cadeia de atos perigosos.
Além de tudo, combinou muito com o tema do Enem, mesmo sem querer. Ainda não está na internet, mas deve rodar o país em festivais.

Rito Sumário
 De Alexandre Derlam, o curta fala sobre aparências e corrupção. A ideia do diretor era retratar que apesar de sempre reclamarmos e mostrarmos indignação perante grandes atos, temos a tendência de abafar os pequenos golpes.
É um filme que trabalha com metáforas e que tem uma distinta visão sobre a sociedade. Ainda não dá pra assistir ao curta inteiro, mas dá pra ter um gostinho através do teaser.

Cartas
O curta de Pietro Santurbano tem uma perspectiva muito delicada. Ele também é um documentário e apresenta várias pessoas lendo trechos de um livro que é igualmente bonito.
Só pela sinopse do filme já dá pra entender mais ou menos qual é a mensagem principal: “Eu preferia que, antes da cachaça, tivesse chegado o livro”. É muito sutil e bonito, mas, infelizmente também não está disponível online.

Palloma
Achei esse curta genial. Não poderia começar a falar dele sem deixar isso claro porque seria muito injusto. William Tenório trabalha a transsexualidade de uma forma extremamente sutil e tocante, que propõe uma reflexão maravilhosa sobre como a sociedade é capaz de silenciar as pessoas trans.
É muito difícil achar pontos de vistas diferentes sobre assuntos que são trabalhados com tanta frequência, mas a produção desse filme que sequer precisa de diálogos para expressar tudo que procura mostrou que ainda há muitas formas de apresentar isso.
Ele não está disponível na internet, mas dá pra conferir um pouquinho da mensagem no teaser.

Avenida Presidente Kennedy
 O filme de Adalberto Oliveira fala sobre essa avenida recifense, mostrando quantas coisas são ignoradas e silenciadas. É também de uma forma documental e apresenta um aspecto mais cru, que ajuda a evidenciar as mazelas que são retratadas.
Atos de rebeldia, descaso e tantos outros fatos do cotidiano que costumam ser desprezados constroem esse curta que é um belo retrato social.
Ele não está online, mas acredito que será postado até o final do ano.

Crua
 O curta de Benedito Serafim trás uma perspectiva diferente sobre a homossexualidade. Tem a intenção de chocar, mas não é um choque sem objetivo, é para mostrar que há muito a ser discutido e muito a se refletir. Mexe na ferida e retrata toda a confusão mental de quem se descobre perdido no meio de tanta heteronormatividade.
Benedito disse que até o ano que vem vai estar na internet, mas enquanto isso dá pra confabular um pouquinho com os teasers.
Felizmente, ele estava lá no Festival e deu pra conversar um pouquinho com ele sobre esse filme maravilhoso e sobre o que vem por aí.

De onde veio a inspiração para o curta? Como surgiu a história? 

O filme vem trazer uma história que acontece muito no Recife e acho no país inteiro, que são os crimes passionais, com envolvimento de casos amorosos. Mas a ideia surgiu de um concurso de roteiro. A gente abriu um concurso de roteiro e aí chega o Crua pra gente, que, por incrível que pareça, já era de um amigo da gente, que é o Gleison Nascimento, que é poeta. Ele escreveu o roteiro e mandou pro concurso e a gente gostou muito e resolveu gravar. Essas histórias acontecem muito em Recife e está na hora da gente começar a discutir isso. A gente escuta muito sobre a homofobia, mas e os crimes passionais, como é que ficam?

É sobre um preconceito contra si mesmo, né?  

Exatamente. No início só é sexo e de repente, do sexo por sexo você começa a ter uma relação com o cara, começa a se apaixonar e começa a perceber “não, isso não tá certo, eu me acho hétero, como é que eu tô me apaixonando pelo cara?”. E é isso que começa o conflito na cabeça do personagem Tarcísio. Ele começa a se conflitar, “eu não posso estar amando esse cara, então é melhor acabar com esse mal pela raiz”.

Esse foi seu primeiro trabalho como diretor?

De ficção, sim. A gente tem mais dois sobre o movimento Estelita, que é o 106 Sociedade Estelita e o Estelita há sangue nas suas mãos.

Qual foi a maior dificuldade de manter esse projeto de forma independente?

A maior dificuldade hoje realmente é na parte técnica. Procurar profissionais na área. Mas, o cinema pernambucano tem disso, a gente vai se adaptando. É a menina de moda que acaba virando figurinista, é o cara que trabalha em estúdio que acaba virando o som direto e assim vai. E eu acho que até por isso que o cinema pernambucano tem essa raiz, essa questão que não é improviso, eu costumo falar que é visceral. A gente transpira cinema e a gente começa a se adaptar, se moldar.

E como funcionou a preparação de elenco? 

A gente se preocupou com isso, a gente chamou Samuel Santos, que é um diretor famosíssimo de Pernambuco e ele fez todo o trabalho de elenco com os atores. A gente gravou agora o Cara de Rato em julho e ano que vem vai estar nos festivais também, que o próprio Samuel também preparou. Esse tem o roteiro e a preparação de elenco de Samuel Santos. Samuel hoje é meu preparador de elenco oficial.

 

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