Arquivo S: O Quarto de Jack

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 Na semana do Oscar, resolvi fazer uma maratona para assistir ao máximo de filmes que conseguisse, só pra não assistir a premiação sem saber de nada e ter pelo menos umas apostas e preferências. Um dos primeiros filmes da lista foi, obviamente, O Quarto de Jack.  A internet inteira estava obcecada por ele e eu, como boa curiosa que sou, queria descobrir o que tinha de tão envolvente nesse filme.
E acabei descobrindo. Eu não sabia nada sobre a história. Nem que tinha um menino fofo, nem qual era o gênero, nada mesmo. Isso quer dizer que fui me apaixonando a cada segundo mais e mais e mais e é o que eu recomendo que você faça. Pare de ler agora e vá assistir e depois volte aqui pra ver se pensamos mais ou menos as mesmas coisas.
Por mais que eu não vá dar spoilers e que só queira gritar pra o universo inteiro o quanto vale a pena assistir ao filme e, especialmente, ler a obra que o inspirou, acredito que não saber sobre a trama dá um toque todo especial à experiência.

ENREDO

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 A trama é sobre um menino que nasceu em um cativeiro, dois anos depois do sequestro da mãe. Tudo que ele conhece em seus cinco anos de vida são as quatro paredes que os cercam, seus poucos livros e brinquedos e o mundo mágico e tão distante que existe dentro da televisão.
Não é algo fácil de ser trabalhado e exige uma delicadeza imensa por parte da escritora (que também é roteirista da adaptação cinematográfica) e do diretor. E não é que conseguiram passar tudo de uma forma sutil e emocionante?

ROTEIRO

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 Preciso explicar por que reservei um momento para discutir apenas sobre o roteiro depois de ter dito o quanto tinha gostado do enredo. Ele tem falhas gritantes. Até chegarmos no plot twist*, é tudo maravilhoso. Vai tudo na velocidade certa, dá pra conhecer como funciona a dinâmica dentro do quarto e os acontecimentos são dosados com uma narração do Jack, o que é um ponto chave.
Abordarem justamente o ponto de vista dessa criança é a minha coisa favorita. Imaginem só. Não é fácil falar numa visão de alguém que viveu sempre em um cativeiro e que tem um conhecimento de mundo tão limitado. É algo muito arriscado e que corre um super risco de soar forçado, mas eles conseguiram fazer com que soasse maravilhosamente natural.
Quem fez a adaptação do livro para o roteiro foi justamente a escritora Emma Donoghue e essa informação me surpreendeu muito. Por mais que eu ache essencial que tenhamos a consciência de que livros e filmes são plataformas diferentes e, portanto, precisam ser avaliados como elementos individuais (ou seja: não faz sentido comparar a ~fidelidade~ do filme em relação ao livro), as falhas do roteiro não estão no livro.
Depois do plot twist tudo fica muito lento e arrastado, passando um monte de informações que são desnecessárias e que só nos fazem desejar que a primeira parte tivesse sido trabalhada com mais calma para, pelo menos, equilibrar a coisa toda.
O livro é dividido em três partes, enquanto o filme é dividido em apenas duas e isso é muito significativo para o modo com o qual a história é contada. A segunda parte da obra literária é essencial e tem uma carga emocional fortíssima, mas foi simplesmente ignorada ao passar para o cinema.
Mas isso não tira o mérito do filme não, tá? A experiência ainda é maravilhosa e ainda dá pra se apaixonar pela trama mesmo com esses defeitos aí. Pra ser sincera, se você for assistir antes de ler, nem vai perceber grande parte das falhas. Então, faz nessa ordem que é sucesso.

ELENCO

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 O que falar do Jacob Tremblay que mal conheço e já quero adotar? Aliás, acho que todo mundo que assistiu tá passando pela mesma situação: é muita fofura e muito talento num ser humano tão pequenininho. O ator dá vida ao Jack e eu acho que é impossível explicar como ele conseguiu fazer isso com tanta maestria. O amor pela mãe, o medo e a raiva que ele sente em algumas situações, tudo é extremamente real. Se existisse Oscar para ator mirim, esse ano seria do Jacob, sem dúvidas.
A Brie Larson também exerceu o papel perfeitamente. Ganhadora do Oscar pela atuação, a moça tem uma sensibilidade incrível e uma das coisas que acredito que tenham contribuído com isso foi a técnica que ela arrumou para se preparar. A atriz passou um mês trancada em casa com uma dieta cheia de restrições para simular o que os personagens teriam passado. Claro que foi numa proporção bem menor do que o que realmente acontece, mas só o fato de ela ter se proposto a algo assim é sensacional.

DIREÇÃO

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Que coisa mais maravilhosa foi a direção desse filme, sério. É super desafiadora a ideia de ter que retratar um tema tão denso e tão intimista quanto o que essa trama propõe e o Lenny Abrahamson cumpre com a proposta perfeitamente.
Filmando tudo dentro do ambiente fechado e retratando de perto esse relacionamento tão íntimo e de tão forte necessidade mútua entre o Jack e a mãe, o diretor recebeu até indicação ao Oscar.
Para o menino, que nunca esteve em nenhum outro lugar senão o ambiente, o quarto é um universo gigante. E é isso que o Lenny faz, transforma um espaço pequeno em outro com dimensões que parecem, para o Jack, suficientes para que os dois passem ali toda a vida. Claro que pra isso é necessário uma grande habilidade com os ângulos e cores e, por isso mesmo, esse trabalho é tão admirável.

O LIVRO

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 Eu não poderia estar mais apaixonada. Se o filme já conseguiu me conquistar, ler a obra fez com que esse sentimento aumentasse um milhão de vezes. É quase como se a adaptação cinematográfica deixasse de ser tão mágica agora que eu tive uma perspectiva tão mais explicada e ampla dessa trama maravilhosa.
Ele é inteirinho no ponto de vista do Jack e faz um trabalho incrível com o uso do vocabulário do garoto. Com termos específicos e até alguns desvios gramaticais, é quase como se nos tornássemos o personagem.
Além de termos acesso aos pensamentos dele, é possível ver a forma que ele hierarquiza as informações. A omissão do nome da mãe e o tratamento de substantivos quaisquer como nomes próprios revela a forma com a qual ele lida com a importância das coisas que estão presentes em seu mundo.

CONCLUSÕES FINAIS

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 Eu quase nunca consigo falar das coisas que realmente gosto sem deixar transparecer o quanto estou feliz/orgulhosa/apaixonada por elas. É impossível ser imparcial quando se trata de algo que fez meu coração se esquentar tantas vezes. E Jack e a sua mãe são praticamente da família já.
Senti uma empatia enorme, ri, fiquei a beira das lágrimas e realmente me senti convidada a pensar mais sobre um monte de coisas que passam tão despercebidas no cotidiano. Sinto como se estivesse batendo nessa tecla repetidamente, mas é realmente incrível ver quão bem trabalhada foi essa trama que é tão delicada.
Para o filme, dou 4 estrelas. Para o livro, entretanto, 5 estrelas são insuficientes. São mil. Um milhão. Todas as estrelas do universo. E muito, muito, muito amor.

*plot twist é aquela reviravolta que a trama dá.

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