Aqueles 3%

[A piada é manjada mas é de coração]

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 Desde que eu soube que a Netflix ia lançar uma série inteiramente brasileira, fiquei morrendo de curiosidade. Assisti um pouquinho pelo YouTube e fiquei na expectativa, louca pra ter mais conteúdo brasileiro no catálogo do serviço de streaming mais amado do universo. E aí que, finalmente, o lançamento chegou.

 Pensei que eu nem ia maratonar, mas acabou que cada episódio era tão instigante que foi impossível parar antes de assistir tudo. O fervor foi tanto que eu já passei uns bons quarenta minutos vendo entrevistas com o elenco, de tão encantada que fiquei. Por isso, nada mais justo do que fazer uma resenha pra compartilhar esse amor.

ENREDO

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 A série fala sobre uma sociedade futurista na qual 3% (tcharam) da população vive em um lugar super topzeira, com justiça, saúde, igualdade, amor, paz e tranquilidade, enquanto os outros 97% estão em condições precárias, com recursos limitadíssimos e um índice de violência gigantesco. Para ter acesso a esse lugar mágico onde todo mundo é feliz (o Maralto), você tem apenas uma oportunidade: passar numa seleção cheia de etapas complicadíssimas.

 Aos vinte anos, você ganha a única chance de participar do processo e é submetido a provas físicas, psicológicas e de vários cunhos diferentes para saber se é “merecedor” de sair do Continente (o lado pobre) e ir para onde existe sombra e água fresca. E é justamente isso que o seriado acompanha: um dos grupos que está tentando passar para o lado de lá, como é chamada a área privilegiada.

ROTEIRO E CONSTRUÇÃO DOS PERSONAGENS

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Oi, meninas, no vídeo de hoje vou ensinar como ser dona da série todinha.

 Nos primeiros episódios, eu tinha certeza de que o roteiro seria uma das coisas que eu elogiaria quando fizesse um post para este blogzinho em que vos falo. Fiquei encantada em como eles conseguiram apresentar os personagens, construindo as personalidades deles e dando abertura para a ideia de que eram todos complexos e cheios de camadas a serem trabalhadas depois. É sempre louvável quando uma série consegue introduzir tanta gente de uma forma tão individual.

 No entanto, da metade pro fim, esse aspecto acabou desandando. As tais camadas nunca foram trabalhadas, todo mundo acabou ficando meio que num lugar comum, sem muito aprofundamento. Os flashbacks foram usados muito bem para criar uma história de fundo, mas faltou mais engajamento, mais desenvolvimento desse aspecto para que conseguíssemos entender mais sobre esses personagens.

 Além disso, algo que me incomodou foi a artificialidade dos diálogos. Era tudo meio engessado, meio irreal, como ninguém falaria de verdade. Em alguns aspectos, acabou gerando até um caráter meio caricaturesco e teatralizado porque eram frases prontas, coisas óbvias, mas que diziam pouco sobre o personagens e que pareciam seguir a um padrão que quebrava até com a própria ideia do desenvolvimento das personalidades.

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  Senti falta também de uma construção maior do próprio universo. Algumas coisas deixam pontas soltas e furos que acabam ficando mal explicados. Até a ~identidade~ deles, um mecanismo que fica no ouvido e que é explorando com certa frequência, deixou uns questionamentos no ar porque quando o funcionamento vai ficando mais explicadinho, acontece algo que quebra com o que tinha sido apresentado.

 Outra aspecto que acho que deixou a desejar foi o do desenvolvimento dos relacionamentos. Tem um romance lá que simplesmente não dá pra engolir: é muito artificial, exagerado, parece até que saiu de uma novela mexicana. Apesar disso, gostei de como trabalharam a questão das relações de confiança num ambiente tão competitivo.

 Um outro ponto positivo foi que, por mais que muita coisa pareça um recorte de distopias que já conhecemos, eles conseguiram inserir elementos novos, como os embates morais que estão envolvidos nas etapas do processo e conseguiram promover essa reflexão de uma forma muito envolvente.

DIREÇÃO

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 Algo que me incomodou um pouco na direção é que achei tudo muito hollywoodiano. Sei que essa é uma opinião pessoal e que não leva em conta aspectos técnicos especificamente, mas senti falta de algo que desse uma cara brasileira. É tudo muito parecido com as distopias que já ganharam o cinema e, pelo menos para mim, fez parecer que faltou algo que caracterizasse o seriado como produto do nosso país.

 Os únicos aspectos que deram um ar de maior indicação foram os cenários e a trilha sonora, mas até a direção de arte é, em si, bem Hollywood. É bonito, é interessante, mas acho que por tudo que a série representa para o cinema brasileiro, dava para ter feito algo com mais identidade.

ELENCO

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O maior Pe. Fábio de Melo que você respeita.

 É difícil avaliar o elenco de 3%. Acho que o roteiro e a direção não facilitaram o desenvolvimento dos personagens e sinceramente acredito que eles teriam conseguido fazer algo muito melhor se esses aspectos fossem solucionados. Mas, sem dúvidas, o João Miguel (Ezequiel) e a Mel Fronckowiak (Julia) foram os pontos altos nesse aspecto e entregaram muito bem personalidades dramáticas, fortes e cheias de nuances.

 A Vaneza Oliveira (Joana) foi uma descoberta pra mim e só quero assistir mais e mais coisas dessa mulher. Todo o corpo dela parece absurdamente em sintonia com o personagem e não tem um dedinho só que seja contrário ao que ela pretende fazer com a atuação. Fiquei honestamente muito impressionada.

 O Rodolfo Valente (Rafael – carinhosamente apelidado por mim de Pe. Fábio de Melo porque ele é igualzinho ao padre!!!) foi outro que achei ótimo. Ele é envolvente, sabe ser seco, mexe muito com as expressões corporal e facial e também conseguiu me deixar curiosa para saber mais sobre os trabalhos dele.

 O Michel Gomes (Fernando) e a Bianca Comparato (Michele) já são conhecidos, mas não achei nada marcante, em especial. Por serem os protagonistas, era de se esperar que eles provocassem um envolvimento maior, mas achei que tem atuações que não causaram tanto impacto quanto os coadjuvantes.

AVALIAÇÃO FINAL

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 Falei tão bem e acabei reclamando de um monte de coisa. Eu mesma, virginiana mello. Mas, sério, serissímo, serião: se você começou a assistir e achou mais ou menos, dá outra chance. Tem uns defeitinhos técnicos, mas em é absurdamente cativante e envolvente. Se você amou de primeira, vamos conversar sobre as teorias e coisas com spoiler, por favor!

Pra mim, 3% representa um negócio lindo, um seriado do nosso país ganhando o mundo e chega me enche o coração de orgulho só em pensar. É bem nos moldes estadunidenses? É sim. Eu gosto dessas distopias estadunidenses e consequentemente gostei muito dessa? Também.

 To louca, torcendo de pés, mãos, dedos e todos os órgãos cruzados para que seja renovada e que a segunda temporada venha com as explicações que nos faltam e corrigindo esses negocinhos aí que deixaram a desejar. Vida longa ao cinema brasileiro! ❤

3,5 estrelas.

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