Resenha de quinta: Menina Má, William March

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Eu namorei esse livro por muito tempo antes de finalmente começar a ler. Simplesmente porque a edição da Dark Side é a coisa mais lindinha do Universo inteiro e eu tava juntando coragem pra desembolsar uns golpinhos pra comprar o dito cujo. Como vocês podem ver, acabou não rolando e eu li em e-book mesmo. Desculpa, eu sou mão de vaca demais pra isso. Mas, o que importa é que ele retribuiu meus sentimentos e nosso caso de amor se intensificou.

Confesso que durante as primeiras páginas eu achei uma repetição do filme A Orfã (que veio umas décadas depois, mas que eu assisti antes) e fiquei meio desanimada. Mas, depois que as coisas realmente começam a acontecer, é difícil não se envolver no desejo de ler as próximas páginas.

Enredo

Menina Má (1954) é um thriller psicológico que narra a história de Rhoda Penmark, uma menininha de 8 anos, que é amada por todo mundo e celebrada por ser muito mais madura e inteligente que todo mundo da sua idade. Apesar de ter toda a admiração dos adultos, Rhoda é meio excêntrica. Meio mecânica demais, carinhosa de menos. Tanto que a mãe dela, Christine, começa a desconfiar que a garota é responsável pelo assassinato de um menino da escola.

A trama acompanha toda essa investigação de Christine pra realmente entender a filha e a forma como ela expressa (ou não expressa) os sentimentos e serviu de inspiração pra um monte de filmes famosíssimos, como O Chamado e Chucky.

Construir um suspense que tenha grande carga psicológica em terceira pessoa é uma missão meio difícil. Como tudo é justamente sobre o envolvimento emocional, pode acabar ficando meio vazio e não passando tudo que deveria. Mas com esse livro não foi assim. O William March trabalha tanto a forma como os personagens se sentem que é ainda mais interessante ser capaz de mostrar vários pontos de vista.

Apesar disso, a quantidade de personagens que não têm um papel muito construído faz com que seja meio difícil lembrar de cada um. Juro que depois da metade do livro eu ainda tinha que voltar umas páginas pra confirmar quem era aquela pessoa porque é absurdamente fácil de confundir. Todos tem uma personalidade parecida e uma função bem similar, então parece que só são várias versões do mesmo personagem, com o único objetivo de atuar como apoio para a trama.

Além disso, uma coisa que me incomodou é que o livro tem um ritmo bem lento no começo. Não só por parecer com o que a gente já está acostumado a ler agora (inclusive, tenho certeza que na época que foi lançado era uma leitura bem mais eletrizante), mas porque esse desejo de construir uma empatia pelos personagens no leitor antes de que algo realmente acontece acaba sendo meio cansativo.

Isso não quer dizer que eu possa tirar o mérito da leitura ser atemporal. Por mais que eu acredite que existem algumas coisas que fariam muito mais sentido e tornariam a experiência bem mais chocante na década de 50, a trama continua sendo envolvente e capaz de surpreender. Mesmo depois de tanto tempo, a linguagem ainda é atual e simples de ser compreendida.

Inclusive, a surpresa na época não fica só por conta da perversidade da criança. O livro aborda temas que são tabu até hoje, como sexualidade e o papel feminino na sociedade. Tem até uma cena lindinha em que uma das personagens critica o manexplaning, a famosa mania masculina de querer explicar tudo nos mínimos detalhes, como se as mulheres não fossem capazes de entender as coisas. Amei bastante.

No geral, a trama continua sendo surpreendente e propondo uma série de questionamentos que são muito interessantes. Basta um esforcinho pra tentar incorporar a visão de quando ela foi escrita para perceber que é uma obra incrível e entender por que serviu de inspiração pra tantas histórias atuais. A leitura não é das mais fluídas, mas as últimas páginas compensam tudo. Juro. É um dos finais mais interessantes que eu já li, dá até um friozinho na barriga.

Não é nem preciso recomendar um livro que virou marco na literatura, né? Vale muito muito muito a pena.

P.S.: Para os amantes de Psicologia, considero uma leitura obrigatória. De nada.

4 estrelas.

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