Usar maquiagem é mais legal que ser cult #4

penelope

Um tempo atrás, assisti a um vídeo da minha xará, Stephanie Noelle, falando sobre algo que eu queria comentar há muito tempo, mas que não sabia exatamente como articular. Felizmente, a forma que ela colocou tudo me ajudou muito nesse processo.

Como todo mundo sabe, na nossa querida sociedade patriarcal que ama ditar normas inúteis, foram estabelecidos papeis de gênero. Isso quer dizer que existe um consenso social de que as mulheres devem se portar de um jeito A e os homens de um jeito B. De acordo com essa ideia, coisas relacionadas a moda e beleza acabaram sendo tratadas como exclusividade feminina. Ou seja: para ser mulher (segundo essa visão), você precisa gostar de maquiagem, das tendências das passarelas, disso e daquilo outro.

E pra piorar, existe uma outra determinação que é exatamente o oposto. Segundo ela, gostar disso é futilidade. Aí fica ao nosso critério arrumar o meio termo entre não ser desleixada e não ser fútil. Não podemos ~desperdiçar neurônios~ nos preocupando com essas ~bobagens~ de moda, mas também não dá pra simplesmente ignorar isso. Todo mundo gosta de uma mulher elegante e bem maquiada que sabe discursar sobre uns assuntos complexos.

É cansativo. Exaustivo, eu diria. Tem tanta coisa que temos que ser, tanta necessidade de preencher um monte de requisitos. É um papel difícil pra quem tenta assiduamente conquistar a aprovação social. Uma mulher como a Stephanie, que fez faculdade de jornalismo na PUC e é muito inteligente, não pode perder tempo investindo no ramo da moda, por exemplo. Quando ela decidiu seguir por esse caminho, todo mundo apontou o dedo achando horrível que ela fosse seguir algo tão inútil.

Num meio de tanta gente metida a intelectual, quem sabe o nome dos batons da MAC e gosta de fazer uma maquiagem diariamente quase nunca é levado a sério. Você não pode gostar de blogueiras de moda, de vídeos de comprinhas e de tutoriais se quiser respeitada na internet. Isso é coisa de gente fútil, vazia.

Dá pra notar isso até quando observamos outras produtoras de conteúdo. Normalmente, mulheres que falam sobre outros assuntos na internet e resolvem abordar moda ou beleza, começam dizendo “ai, não entendo nada disso” ou soltando um “oi, meninas”, pra deixar claro que é uma brincadeira. Mas, gente, pelo amor de Jeová: Tá tudo bem.

Gostar de maquiagem e saber fazer um delineado não diminui o seu QI. Não te torna menos inteligente, menos interessante, menos nada. É um absurdo que tanta repulsa seja dedicada a um grupo de coisas única e exclusivamente porque ele é associado à imagem feminina. Não existe isso de “futilidade” ou de “assunto inútil”. Cada um gosta do que quer, paciência. Não to dizendo a ninguém que é futilidade passar 3 horas em frente a uma televisão assistindo gente do outro lado do mundo correr atrás de uma bola. Simplesmente porque ninguém é obrigado a nada.

A gente não precisa tá o tempo inteiro lendo Sartre e declamando poesia pra ter a nossa opinião validada. Não precisamos usar um vocabulário polido o tempo inteiro nem fingir que a gente não gosta de passar uns bons 40 minutos assistindo vídeos de gatinho (ou de tutorial de maquiagem!) de vez em quando. Essa onda de querer ser mais inteligente, mais culto, mais polido, mais não sei o que é inútil.

Eu sou contra essa ideia de associar o feminismo e os movimentos sociais ao consumismo, quero deixar isso bem claro. Por mais que eu acredite que a negação do que é visto como feminino é misoginia, não acho que enaltecer esses temas é uma forma de empoderamento. Mas a questão é que todo mundo deve ter o direito de escolher do que gosta e do que não gosta. É o mínimo.

Não importa o que a gente faça, sempre vai ter alguém nos silenciando por isso. Aqui o assunto é maquiagem, mas pode ser literalmente qualquer outra coisa. Assistir desenho. Ouvir boyband. Gostar de novela. Qualquer coisa. Parece que todo mundo quer agir como se vivesse numa realidade paralela em que a vida é divida entre discutir sobre as questões profundas do mundo, assistir documentários holandeses e ler umas enciclopédias. Imagina só quão insuportável isso seria. Nosso cérebro sequer seria capaz de processar as coisas.

Tem gente que estuda muito a fundo sobre moda. Que entende, que pode te falar sobre formas, tecidos, cores, que conseguiria discursar sobre isso por horas. E aí você vai me dizer que o estudo dessa pessoa é inútil só porque ela não tava aprendendo sobre física quântica? Por favor.

Que bom que tem gente no mundo interessada em aprender sobre biologia. Sobre matemática, filosofia, política, economia, astronomia. É ótimo. É incrível. E o mundo só gira em harmonia justamente porque nós nos dividimos em estudar coisas diferentes. Que incrível que possamos ser tão plurais, tão diferentes, que a gente possa lidar com a diversidade e entender que é só por causa dela que tudo segue tranquilamente.

Então, assista suas novelas. Leia seus mangás. Use a sua maquiagem. Acompanhe vídeo de comprinhas. Todo mundo vai sempre apontar o dedo, sempre achar fútil, achar ruim, achar que não tá bom o suficiente. Pra que se preocupar tanto?

Falar sobre existencialismo é massa, mas fazer um delineado perfeito é muito mais impressionante.

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