Você não é a mãe do seu namorado #42

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É isso. Você não é a mãe do seu namorado. Nem do seu marido, nem do seu rolinho, nem do seu crush, nem de seja lá como você chame a pessoa com quem você está se relacionando. Esse é o tipo de coisa que parece óbvia demais, mas que nós costumamos esquecer. Você não é obrigada a lembrá-lo de pagar os boletos, de estudar pras provas ou de ir ao médico. É claro que você pode fazer isso (e é gentil que faça), mas não é sua obrigação.

Você não é responsável pelo sucesso profissional dele e não merece ter que entrar na milésima discussão sobre como ele está deixando o tempo passar, sem buscar algo melhor. Você sabe que ele já ouviu esse discurso um milhão de vezes e não é sua obrigação repeti-lo até que ele aceite. Simplesmente não vai acontecer tão fácil assim.

Estar em um relacionamento significa, de muitas formas, dividir. Dividir responsabilidades, tarefas, fardos. Isso quer dizer que não é seu papel carregar tudo sozinha por achar que a pessoa com quem você está não faria isso da forma correta. Uma hora ou outra ele vai ter que aprender. Caso contrário, você vai estar permanentemente exausta.

Já cansei de ouvir amigas reclamando sobre como têm que puxar o pé do namorado para as coisas mais simples. Veja bem, não há nada de errado com assumir essa posição, mas você não acha que é meio cansativo ter que manter permanentemente esse senso de responsabilidade? É um trabalho árduo e que nunca terá um fim, a menos que você determine onde colocará o ponto final.

É meio automático deduzir que os homens não vão saber se cuidar sozinhos. “Ele viveu sempre na barra da saia da mãe”, “ele nunca aprendeu a se virar”, “se eu não fizer, ele vai fazer de qualquer jeito”. Às vezes, o qualquer jeito é o primeiro passo do caminho até o jeito certo. Ou até o jeito que ele conseguirá fazer em um ritmo próprio, pelo menos.

Dar à pessoa com quem você está o espaço para crescer é bom para as duas partes. Ninguém sai perdendo. Ninguém precisa entrar em discussões sem sentido, com gritos e batidas de porta. É bem mais produtivo segurar a mão dele nessa caminhada, que carregá-lo nos ombros.

Você não é mãe dele. E não há nada de errado com isso.

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Should I stay or should I go? #38

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Eu gosto de rotinas. Posso dizer que não e inventar uma desculpa para fazer parecer que gosto de viver cada dia intensamente e que aposto na imprevisibilidade de olhos fechados, mas seria tudo uma balela. Gosto muito mais de planejar o que vai acontecer no próximo dia, próxima semana, próximo ano.Gosto de ter tudo bem definido e me sinto muito ameaçada com a falta de estabilidade. Sou aquele personagem caricato dos filmes que sempre fica com um pé atrás antes de todas as cenas realmente significativas da narrativa.

É por essas e outras que uma das minhas metas desse ano foi “dizer sim”. Pura e simplesmente, como no título do livro da Shonda Rhimes. Dizer sim para tudo que me apavora e que torna o chão abaixo dos meus pés em um monte de areia movediça. Ok, isso foi meio brega, mas é mais ou menos essa a vibe: aceitar o assustador, o imprevisível, o diferente.

Depois de quase dez meses, preciso dizer que nem sempre é fácil. Aliás, dizer não também é uma virtude. É importante entender quando vale a pena estabelecer raízes e apostar no conhecido, no confortável. É difícil chegar em um equilíbrio, mas acredito que esse é o tipo de coisa pela qual devemos buscar. Entender quando ir e quando é melhor dar meia volta.

Dizendo sim fui capaz de ir a shows que me renderam experiências únicas, de viajar sozinha e de escrever um artigo no prazo mais apertado de todos. Dizendo sim aceitei esse projeto meio torto de postar todos os dias. Só três letrinhas e eu já estava em um caminho meio diferente e esquisito.

Dizendo não aprendi quem devo manter ao meu lado e entendi que o ego as vezes é uma armadilha meio traiçoeira. Dizendo não economizei dinheiro e fiquei em casa em noites chuvosas, sem nenhum arrependimento. Só três letrinhas e eu já estava colocando minha saúde mental na frente das outras coisas.

Em um monte de livros de auto-ajuda, é possível encontrar mil dicas de “quebre a rotina”, “abandone a estabilidade”, mas, na real, acho que é uma questão bem mais complexa que isso. O que vale mais é estabelecer a sua própria rotina e descobrir o que cabe ou não nela. É abraçar as oportunidades de mudança, mas se conhecer o suficiente para saber quais serão verdadeiramente positivas.

Não importa o que você faça. Eventualmente, você vai quebrar a cara.  Indo ou ficando. Dizendo sim ou não. Esqueça as regras. A vida real ainda é a coisa mais imprevisível que existe.

 

Não se compare #31

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Não se compare. A primeira vista, isso pode parecer algo inofensivo, uma forma de reconhecer os pontos da sua vida que precisam de aprimoramento, mas é só uma grande jornada de autodepreciação. Como diria a Bela Gil, você pode substituir o ato de se comparar por enaltecer as qualidades alheias e buscar desenvolve-las, por exemplo. É bem mais prático, bem mais eficiente e, mais importante de tudo, bem menos destrutivo.

Comparar-se aos outros é, frequentemente, deduzir que você nunca chegará lá. Eles são mais inteligentes, mais preparados, mais esforçados. Você nunca terá tanta determinação, tanta coragem, tanta sorte. É mais fácil pra eles porque eles têm um amigo que faz não sei o que e um parente que faz não sei que lá. Pode até ser, mas em que isso te ajuda?

Uma das armadilhas da comparação é o fato de que a gente não faz ideia do que está por trás do que vemos. É fácil demais enlouquecer se comparando às vidas perfeitas que passam pelo seu feed. Todo mundo é bonito, todo mundo é feliz, todo mundo está vivendo um sonho. Mas você sabe que nem tudo é verdade, não sabe? Sabe que aquilo é só um recorte da realidade, combinado a um bom ângulo de foto e um filtro bem escolhido, né? Como você pode se comparar de modo justo se nem sabe toda a verdade?

Imagine o tempo que poderia ser investido em buscar suas qualidades e identificar o que precisa ser melhorado sem se medir por olhos alheios. Você é o que você tem. E se não fizer o melhor com isso, será um desperdício.

Quem tem medo de ser brega? #16

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A internet tem umas manias estranhas. Isso não é segredo pra ninguém. A grande questão da vez, que tem me deixado bastante intrigada, é o hábito de reclamar de quem é brega. Vez ou outra alguém posta uma foto de um quarto cheio de coraçõezinhos, balões e declarações de amor e um monte de gente comenta que, se visse aquilo, sairia correndo. Sabe aquela frase “se for para namorar assim, prefiro morrer solteiro”? É mais ou menos isso.

Aparentemente, alguém decidiu que demonstrações de amor são bregas. Combinado a isso, também determinaram que o brega é ruim e vergonhoso e, portanto, não deve existir. Balela. Esse é o tipo de coisa que a gente fala sem pensar, mas que, pra seguir, dá mais trabalho do que parece.

Não quero dizer que o amor só é válido se você mandar carro de som com música do Reginaldo Rossi para a porta da pessoa no dia do aniversário de suas semanas de namoro. Não é bem isso. Mas essa mania chata de colocar regra no relacionamento alheio e determinar o que é ou não válido não faz muito sentido.

A grande graça de uma relação é estabelecer regras próprias, que devem fazer sentido unicamente para quem está dentro dela. Quer chamar de momolado, mandar balão em formato de coração e fazer textão no Facebook? Fica a vontade. Quer falar sobre os seus sentimentos só para a pessoa, sem demonstração pública? Maravilhoso também. Isso vai de cada um.

É praticamente impossível viver um relacionamento inteiro sem fazer algo que seria considerado brega por terceiros. E tá tudo bem. Quem disse que você precisa bancar a Elsa o tempo todo? O amor é brega, vida que segue. A maravilha disso tudo é permitir que alguém conheça um lado seu que ninguém mais teve acesso. Se essa não for uma das coisas mais incríveis das relações humanas, não sei o que será.

Tá liberado demonstrar afeto em público, andar de mãos dadas, mandar mensagenzinha de amor no meio do dia sem muita razão. Abrace a breguice. Ela é uma fofa!

Disclaimer: Sei que, infelizmente, muitos casais não podem demonstrar como se sentem em público, mas estou me referindo, especificamente, a quem escolhe não fazer isso por outras razões.

 

A magia da escrita #15

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Eu considerei a possibilidade de não falar sobre o Dia do Escritor esse ano. Como a data já foi tema de postagem outra vez, fiquei pensando se ainda existia muito a se falar sobre isso. No entanto, resolvi fazer um contraponto. Há um ano, falei sobre o sentimento de não finalizar textos e intitulei isso de ser quase escritor. Hoje, resolvi falar sobre a sensação de ver as palavrinhas que você digitou se transformando em algo concreto. Spoiler: É mágico.

Isso não quer dizer que, nos últimos 365 dias, eu tenha finalizado uma saga de livros quilométricos nem que eu esteja prestes a ser publicada por uma grande editora. Não se anime. Por enquanto, isso ainda não é verdade. Apesar disso, consegui concluir algumas coisas e tive o privilégio de sentir aquele quentinho no coração que acompanha o sentimento de trabalho cumprido.

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Precisamos falar sobre suicídio #14

Precisamos falar sobre suicídio. Não só quando alguém famoso morre ou quando uma série sobre a temática está em alta. Precisamos verdadeiramente parar e falar sobre isso. A mídia tentou ignorar esse tema durante muito tempo e, obviamente, não funcionou.

Precisamos falar sobre o que acontece antes desse ato. Sobre o medo, a dor, o desespero. Sobre os pedidos de ajuda silenciosos que costumamos ignorar porque é mais fácil falar do que prestar atenção nos sinais. É fácil demais discursar sobre isso, manter-se no lugar comum. Desafiador é compreender quando alguém que está ao seu lado é acometido pela depressão.

Aliás, precisamos falar sobre ela também. Sobre esse tabu gigantesco que nos ronda por mais que esteja mais perto do que imaginamos. Sobre a necessidade de buscar ajuda profissional e sobre isso não ser motivo para sentir vergonha.

Precisamos falar sobre o fato de que quase todo mundo conhece alguém que tentou se matar. As vezes, alguém que dava muitos indícios gritantes. As vezes, alguém que só pedia ajuda em silêncio. Não existe cara nem modelo. A dor também tem suas facetas.

Precisamos falar sobre o que se passa na cabeça de quem toma esse tipo de decisão. Por que alguém acharia que tirar a própria vida é a solução? Como mudar isso?

Precisamos entender, ouvir, notar. Precisamos oferecer ajuda. Precisamos falar sobre suicídio, mas precisamos fazer isso logo. Antes que seja tarde demais.

Existe fórmula para vencer o ciúme? #9

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Eu sempre fui muito ciumenta. Com meus amigos, meus familiares, qualquer um. Na minha cabeça, era algo completamente ~natural~ e uma espécie de demonstração de amor e de preocupação. Por isso, foi meio estranho quando eu comecei a ter mais contato com o feminismo e vi pessoas criticando a existência desse sentimento. Demorou um tempo até que eu conseguisse ver algum sentido nisso e hoje não consigo me lembrar de como era pensar de outra forma. No entanto, isso não quer dizer que abandonar os ciúmes seja uma tarefa fácil. De forma nenhuma.

Meu primeiro instinto foi afastar qualquer faísca disso. Enquanto eu reafirma que era nocivo e egoísta da minha parte, era fácil fingir. Adotei a postura despreocupada de quem era sabida demais para se deixar levar por algo tão bobinho. “É só uma construção social”, eu repetia. “Não tem nada a ver”, reafirmava. Mas não é tão simples assim.

Uma vez eu fui conversar com uma amiga do meu namorado de quem eu tinha ciúmes. Aproveitei o fato de que ela era feminista e falei exatamente o que sentia. Para minha sorte, a partir daí, começamos a conversar e descobrimos outras coisas em comum. No entanto, nem isso me deu a fórmula mágica para parar de me importar instantaneamente. Vez ou outra, eu ainda me pegava enumerando inseguranças no que dizia respeito a ela.

Me lembrei disso quando assisti ao vídeo de hoje da Jout Jout sobre a tendência que temos de categorizar sentimentos como negativos ou positivos e expulsá-los imediatamente, sem parar pra pensar. Raiva, tristeza, inveja? Nada disso é bom, deve simplesmente ser ignorado. Atire a primeira pedra quem viu isso funcionar de verdade.

Sentimentos não são caixinhas que podemos deixar num canto, ignorando que existem. Felizmente, é um pouco mais complexo que isso. Por isso, em relação aos ciúmes e a qualquer sentimento ~nocivo~, adotei uma política que é mais honesta comigo: Me perguntar o motivo daquilo. Por que me sinto insegura? Por que isso me deixa brava? Por que estou triste?

Pode até parecer que estou querendo jogar na sua cara uma bobagem positivista, mas na verdade está mais para o contrário. Invés de escolher quais sentimentos valem ou não a pena ser sentidos, é muito mais eficaz entender a motivação por traz deles. Se você gosta de dar nome aos bois, acredito que isso tem um pézinho na Psicanálise. Fica mais fácil lidar com as coisas quando entendemos de onde elas surgem e o que significam.

A síndrome da pessoa boazinha (que renderá um post em breve) é muito nociva e improdutiva. Não vale a pena fingir estar sempre de bom humor, se é tudo uma grande mentira. Entenda o que está sentindo. Viva um pouquinho o sentimento. Se questione. Procure compreender por que aquilo te afeta e de que forma você pode lidar com isso. As vezes, a solução que vai surgir na sua cabeça é realmente respirar e esquecer aquilo. De vez em quando, pode ser que você decida quebrar tudo. Aí vai de cada um.

Fórmulas mágicas só funcionam em livros de contos de fada. Na vida real, o buraco é mais em baixo.