A magia da escrita #15

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Eu considerei a possibilidade de não falar sobre o Dia do Escritor esse ano. Como a data já foi tema de postagem outra vez, fiquei pensando se ainda existia muito a se falar sobre isso. No entanto, resolvi fazer um contraponto. Há um ano, falei sobre o sentimento de não finalizar textos e intitulei isso de ser quase escritor. Hoje, resolvi falar sobre a sensação de ver as palavrinhas que você digitou se transformando em algo concreto. Spoiler: É mágico.

Isso não quer dizer que, nos últimos 365 dias, eu tenha finalizado uma saga de livros quilométricos nem que eu esteja prestes a ser publicada por uma grande editora. Não se anime. Por enquanto, isso ainda não é verdade. Apesar disso, consegui concluir algumas coisas e tive o privilégio de sentir aquele quentinho no coração que acompanha o sentimento de trabalho cumprido.

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Precisamos falar sobre suicídio #14

Precisamos falar sobre suicídio. Não só quando alguém famoso morre ou quando uma série sobre a temática está em alta. Precisamos verdadeiramente parar e falar sobre isso. A mídia tentou ignorar esse tema durante muito tempo e, obviamente, não funcionou.

Precisamos falar sobre o que acontece antes desse ato. Sobre o medo, a dor, o desespero. Sobre os pedidos de ajuda silenciosos que costumamos ignorar porque é mais fácil falar do que prestar atenção nos sinais. É fácil demais discursar sobre isso, manter-se no lugar comum. Desafiador é compreender quando alguém que está ao seu lado é acometido pela depressão.

Aliás, precisamos falar sobre ela também. Sobre esse tabu gigantesco que nos ronda por mais que esteja mais perto do que imaginamos. Sobre a necessidade de buscar ajuda profissional e sobre isso não ser motivo para sentir vergonha.

Precisamos falar sobre o fato de que quase todo mundo conhece alguém que tentou se matar. As vezes, alguém que dava muitos indícios gritantes. As vezes, alguém que só pedia ajuda em silêncio. Não existe cara nem modelo. A dor também tem suas facetas.

Precisamos falar sobre o que se passa na cabeça de quem toma esse tipo de decisão. Por que alguém acharia que tirar a própria vida é a solução? Como mudar isso?

Precisamos entender, ouvir, notar. Precisamos oferecer ajuda. Precisamos falar sobre suicídio, mas precisamos fazer isso logo. Antes que seja tarde demais.

Existe fórmula para vencer o ciúme? #9

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Eu sempre fui muito ciumenta. Com meus amigos, meus familiares, qualquer um. Na minha cabeça, era algo completamente ~natural~ e uma espécie de demonstração de amor e de preocupação. Por isso, foi meio estranho quando eu comecei a ter mais contato com o feminismo e vi pessoas criticando a existência desse sentimento. Demorou um tempo até que eu conseguisse ver algum sentido nisso e hoje não consigo me lembrar de como era pensar de outra forma. No entanto, isso não quer dizer que abandonar os ciúmes seja uma tarefa fácil. De forma nenhuma.

Meu primeiro instinto foi afastar qualquer faísca disso. Enquanto eu reafirma que era nocivo e egoísta da minha parte, era fácil fingir. Adotei a postura despreocupada de quem era sabida demais para se deixar levar por algo tão bobinho. “É só uma construção social”, eu repetia. “Não tem nada a ver”, reafirmava. Mas não é tão simples assim.

Uma vez eu fui conversar com uma amiga do meu namorado de quem eu tinha ciúmes. Aproveitei o fato de que ela era feminista e falei exatamente o que sentia. Para minha sorte, a partir daí, começamos a conversar e descobrimos outras coisas em comum. No entanto, nem isso me deu a fórmula mágica para parar de me importar instantaneamente. Vez ou outra, eu ainda me pegava enumerando inseguranças no que dizia respeito a ela.

Me lembrei disso quando assisti ao vídeo de hoje da Jout Jout sobre a tendência que temos de categorizar sentimentos como negativos ou positivos e expulsá-los imediatamente, sem parar pra pensar. Raiva, tristeza, inveja? Nada disso é bom, deve simplesmente ser ignorado. Atire a primeira pedra quem viu isso funcionar de verdade.

Sentimentos não são caixinhas que podemos deixar num canto, ignorando que existem. Felizmente, é um pouco mais complexo que isso. Por isso, em relação aos ciúmes e a qualquer sentimento ~nocivo~, adotei uma política que é mais honesta comigo: Me perguntar o motivo daquilo. Por que me sinto insegura? Por que isso me deixa brava? Por que estou triste?

Pode até parecer que estou querendo jogar na sua cara uma bobagem positivista, mas na verdade está mais para o contrário. Invés de escolher quais sentimentos valem ou não a pena ser sentidos, é muito mais eficaz entender a motivação por traz deles. Se você gosta de dar nome aos bois, acredito que isso tem um pézinho na Psicanálise. Fica mais fácil lidar com as coisas quando entendemos de onde elas surgem e o que significam.

A síndrome da pessoa boazinha (que renderá um post em breve) é muito nociva e improdutiva. Não vale a pena fingir estar sempre de bom humor, se é tudo uma grande mentira. Entenda o que está sentindo. Viva um pouquinho o sentimento. Se questione. Procure compreender por que aquilo te afeta e de que forma você pode lidar com isso. As vezes, a solução que vai surgir na sua cabeça é realmente respirar e esquecer aquilo. De vez em quando, pode ser que você decida quebrar tudo. Aí vai de cada um.

Fórmulas mágicas só funcionam em livros de contos de fada. Na vida real, o buraco é mais em baixo.

Você já se sentiu uma fraude? #7

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Tenho pensado bastante sobre a tal Síndrome do Impostor. Aquela sensaçãozinha incômoda de que você não merece de verdade aquilo, sabe? O tema tem sido tão debatido recentemente que fica óbvio que todo mundo surta por esse tipo de coisa de vez em quando. Todo mundo fica apavorado com a possibilidade de que as outras pessoas descubram que, no fim das contas, somos apenas fraudes.

Que escândalo seria se descobrissem que você não é tão boa, tão inteligente, tão habilidosa ou tão qualquer outra coisa quanto pensam? De que valem os elogios alheios, se, no fundo, você sequer acha que merece eles de verdade? Tem muita gente mais esperta no mundo. Gente que além de fazer o que você faz (seja lá o que for), sabe jogar golfe. Ou falar italiano. Ou tocar um instrumento. Ou qualquer outra coisa que você não saiba também. Pior: Tem gente fazendo o que você faz, enquanto enfrenta uma situação difícil.

Gente que acabou de passar por um divórcio. Gente que tem alguém doente na família. Gente que trabalha dois turnos sem parar. Todo tipo de gente vivendo em cenários mais complexos, mais perturbados, mais qualquer coisa. Sem dúvidas essas pessoas merecem bem mais reconhecimento que você. Merecem essa promoção, esses elogios, esse aumento, o que quer que você esteja ganhando como recompensa por ter feito algo que alguém poderia fazer melhor. No final das contas, você só estava na hora certa e no lugar certo, não é nada para se vangloriar.

É um sentimento horrível e assustador que te para e te impede de fazer outras coisas. Com o tempo, acaba virando uma bola de neve: De tanto medo de decepcionar os outros e de não ser aquilo que imaginam, você vai se podando, colocando limitações, se impedindo de crescer. Ninguém quer lidar com os olhares de reprovação alheios, cheios da certeza de que você não era tudo que imaginavam. Por isso, é mais fácil aceitar o título de inutilidade e evitar situações desse tipo.

No fundo, isso é uma grande bobagem. Uma armadilha que o nosso cérebro prega, juntando a falta de confiança com o medo de errar. E daí se foi um golpe de sorte? Outras 7 bilhões de pessoas poderiam ter tido a mesma oportunidade, mas foi você que a abraçou. Quem disse que isso é menos incrível?

É claro que alguém poderia estar ocupando a mesma posição que você, mas isso se aplica a literalmente todo mundo. Outras pessoas poderiam acabar na Presidência ou na direção de empresas multinacionais. É óbvio, não há nenhum mistério nisso. Isso não quer dizer que seja algum crime que você esteja no local que conquistou. Seja lá como isso aconteceu.

A comparação, apesar de nociva, é inevitável. Abraçamos os “e se” com tanta força, que de vez em quando, eles tomam todo o espaço existente. É normal, acontece. No entanto, não dá pra parar a vida e deixar de fazer as coisas por medo de decepcionar os outros. Ninguém agrada a todo mundo. Tá tudo bem.

Abrace as suas conquistas e reconheça seu mérito. Não importa se foi a sorte, o Universo ou alguma força mágica que te transportou para essa posição, o que importa é que ela é sua. Se foi algo místico, que sorte. Pior seria ter uma inimizade cósmica.

Usar maquiagem é mais legal que ser cult #4

penelope

Um tempo atrás, assisti a um vídeo da minha xará, Stephanie Noelle, falando sobre algo que eu queria comentar há muito tempo, mas que não sabia exatamente como articular. Felizmente, a forma que ela colocou tudo me ajudou muito nesse processo.

Como todo mundo sabe, na nossa querida sociedade patriarcal que ama ditar normas inúteis, foram estabelecidos papeis de gênero. Isso quer dizer que existe um consenso social de que as mulheres devem se portar de um jeito A e os homens de um jeito B. De acordo com essa ideia, coisas relacionadas a moda e beleza acabaram sendo tratadas como exclusividade feminina. Ou seja: para ser mulher (segundo essa visão), você precisa gostar de maquiagem, das tendências das passarelas, disso e daquilo outro.

E pra piorar, existe uma outra determinação que é exatamente o oposto. Segundo ela, gostar disso é futilidade. Aí fica ao nosso critério arrumar o meio termo entre não ser desleixada e não ser fútil. Não podemos ~desperdiçar neurônios~ nos preocupando com essas ~bobagens~ de moda, mas também não dá pra simplesmente ignorar isso. Todo mundo gosta de uma mulher elegante e bem maquiada que sabe discursar sobre uns assuntos complexos.

É cansativo. Exaustivo, eu diria. Tem tanta coisa que temos que ser, tanta necessidade de preencher um monte de requisitos. É um papel difícil pra quem tenta assiduamente conquistar a aprovação social. Uma mulher como a Stephanie, que fez faculdade de jornalismo na PUC e é muito inteligente, não pode perder tempo investindo no ramo da moda, por exemplo. Quando ela decidiu seguir por esse caminho, todo mundo apontou o dedo achando horrível que ela fosse seguir algo tão inútil.

Num meio de tanta gente metida a intelectual, quem sabe o nome dos batons da MAC e gosta de fazer uma maquiagem diariamente quase nunca é levado a sério. Você não pode gostar de blogueiras de moda, de vídeos de comprinhas e de tutoriais se quiser respeitada na internet. Isso é coisa de gente fútil, vazia.

Dá pra notar isso até quando observamos outras produtoras de conteúdo. Normalmente, mulheres que falam sobre outros assuntos na internet e resolvem abordar moda ou beleza, começam dizendo “ai, não entendo nada disso” ou soltando um “oi, meninas”, pra deixar claro que é uma brincadeira. Mas, gente, pelo amor de Jeová: Tá tudo bem.

Gostar de maquiagem e saber fazer um delineado não diminui o seu QI. Não te torna menos inteligente, menos interessante, menos nada. É um absurdo que tanta repulsa seja dedicada a um grupo de coisas única e exclusivamente porque ele é associado à imagem feminina. Não existe isso de “futilidade” ou de “assunto inútil”. Cada um gosta do que quer, paciência. Não to dizendo a ninguém que é futilidade passar 3 horas em frente a uma televisão assistindo gente do outro lado do mundo correr atrás de uma bola. Simplesmente porque ninguém é obrigado a nada.

A gente não precisa tá o tempo inteiro lendo Sartre e declamando poesia pra ter a nossa opinião validada. Não precisamos usar um vocabulário polido o tempo inteiro nem fingir que a gente não gosta de passar uns bons 40 minutos assistindo vídeos de gatinho (ou de tutorial de maquiagem!) de vez em quando. Essa onda de querer ser mais inteligente, mais culto, mais polido, mais não sei o que é inútil.

Eu sou contra essa ideia de associar o feminismo e os movimentos sociais ao consumismo, quero deixar isso bem claro. Por mais que eu acredite que a negação do que é visto como feminino é misoginia, não acho que enaltecer esses temas é uma forma de empoderamento. Mas a questão é que todo mundo deve ter o direito de escolher do que gosta e do que não gosta. É o mínimo.

Não importa o que a gente faça, sempre vai ter alguém nos silenciando por isso. Aqui o assunto é maquiagem, mas pode ser literalmente qualquer outra coisa. Assistir desenho. Ouvir boyband. Gostar de novela. Qualquer coisa. Parece que todo mundo quer agir como se vivesse numa realidade paralela em que a vida é divida entre discutir sobre as questões profundas do mundo, assistir documentários holandeses e ler umas enciclopédias. Imagina só quão insuportável isso seria. Nosso cérebro sequer seria capaz de processar as coisas.

Tem gente que estuda muito a fundo sobre moda. Que entende, que pode te falar sobre formas, tecidos, cores, que conseguiria discursar sobre isso por horas. E aí você vai me dizer que o estudo dessa pessoa é inútil só porque ela não tava aprendendo sobre física quântica? Por favor.

Que bom que tem gente no mundo interessada em aprender sobre biologia. Sobre matemática, filosofia, política, economia, astronomia. É ótimo. É incrível. E o mundo só gira em harmonia justamente porque nós nos dividimos em estudar coisas diferentes. Que incrível que possamos ser tão plurais, tão diferentes, que a gente possa lidar com a diversidade e entender que é só por causa dela que tudo segue tranquilamente.

Então, assista suas novelas. Leia seus mangás. Use a sua maquiagem. Acompanhe vídeo de comprinhas. Todo mundo vai sempre apontar o dedo, sempre achar fútil, achar ruim, achar que não tá bom o suficiente. Pra que se preocupar tanto?

Falar sobre existencialismo é massa, mas fazer um delineado perfeito é muito mais impressionante.

Vida adulta, viajar sozinha e escândalos #3

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Hoje faz duas semanas desde que eu viajei sozinha pela primeira vez. Eu saí da casa dos meus pais há mais dois anos, então é de se imaginar que isso não fosse lá uma experiência muito louca. Mesmo assim, eu meio que esperava que fosse. Na minha cabeça, eu me sentiria oficialmente adulta no momento em entrasse no avião sem ninguém ao meu lado. Infelizmente, não rolou.

A viagem em si foi maravilhosa, isso é inegável. Fui para um congresso em Fortaleza e conheci pessoas incríveis e muito inspiradoras que me fizeram voltar para casa louca para me jogar de cabeça na área acadêmica. Além disso, pude conhecer um dos jornalistas que mais admiro no mundo e andar de patins na praia com uma amiga que conheci na internet há quase dez anos.

No entanto, o tal click da vida adulta não veio. A gente espera um sentimento avassalador, uma sensação totalmente diferente, mas os indícios de que a adolescência passou se manifestam de verdade na indignação com o preço do almoço. Aliás, esse foi provavelmente meu maior aprendizado: A gente acha que viajar sozinho é muito fácil e que basta juntar um dinheirinho que vai dar certo, mas ninguém conta que refeições e transportes são coisas caríssimas.

No final das contas, a minha maior aventura foi voltar pra casa com oito livros na mala de mão, morrendo de medo de ter que despachar. Apesar disso, tenho começado a acreditar que talvez a falta de magia também seja um indicativo gritando que a vida adulta já chegou faz tempo e que sua chegada não é tão escandalosa quanto se espera.

De escândalo mesmo, só o valor do self service. Ô coisinha cara.

Crises existenciais e um projeto muito louco #1

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Esse ano tem sido uma grande e assustadora crise existencial. É um sentimento que parece passageiro, mas que, volta e meia, garante que eu não esqueça que ele continua aqui. Por um tempo, eu até consegui ser a pessoa produtiva que luto tanto para ser, mas, na maior parte dele, foi só uma grande massa cinzenta de ansiedade e desordem.

Eu não sei se é uma sensação intensificada pela proximidade dos 20 e da famigerada crise existencial que essa idade parece ter o hábito de carregar. Na real, eu acho que tem muito mais a ver com o fato de que eu tenho estado em crise desde sempre. Sou neurótica demais pra não encher o universo de questões existenciais e dúvidas que nem fazem muito sentido. Acontece.

Em meio a bagunça em que tenho estado, algumas coisas legais aconteceram. Conheci umas pessoas, ouvi umas coisas e talvez esteja voltando a sentir algo que me conforta muito: a noção de que eu sei onde quero chegar.

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