O corpo feminino não é público

assédio

Esse gif não tem exatamente muito a ver com o post mas achei legal. Desculpa.

No último fim de semana, eu fui pra um show maravilhoso que tinha atrações como Marília Mendonça e Maiara e Maraisa. Essa informação tem muita relevância na história? Nenhum pouco, mas eu não queria deixar de frisar que os shows em si foram incríveis. Infelizmente, eu também acabei presenciando umas cenas assustadoras. A quantidade de homem puxando o braço de mulher, tentando forçar beijo e falando uns absurdos que eu vi me deixou completamente enojada.

Eu juro que fiquei a ponto de entrar em brigas algumas vezes de tão incomodada que eu tava. Mas eu não fiz nada. Eu só desejei do fundo do meu coração que aqueles caras parassem, mas eu, a feministona descontruída que faz textão falando de assédio, não fiz nada. Eu sequer sabia o que fazer. E isso não é o pior de tudo: a pior parte é que eu sei que é algo absurdamente frequente.

Sei disso porque vi a quantidade de pessoas que sequer olhavam duas vezes pra o que tava acontecendo. Sei disso porque quando comentei com uma amiga ela disse que era “esperado”. Sei disso porque um dos caras que eu vi estava acompanhado do pai, que, assim como ele, achava toda a situação super engraçada. Quem não acharia hilário ficar assediando mulheres descaradamente?

Em poucas situações da minha vida, eu me senti tão impotente. Tão frustrada. É bizarro ver a quantidade de pessoas que continuam andando, bebendo e cantando as músicas, enquanto alguém puxa o rosto de uma mulher pra beijá-la a força. É pior ainda que eu saiba que algumas pessoas vão dizer que “todo mundo sabe que isso acontece” e que “se tivessem em casa, isso não teria acontecido”.

Esses argumentos, que sequer deveriam receber esse título, são, no mínimo, infantis. É quase como uma criança tentando se justificar por algo que sabe que está errado. Afirmar que porque isso acontece com frequência, as mulheres simplesmente deveriam ignorar ou evitar frequentar lugares que possam servir de cenário pro assédio é surreal. Literalmente surreal.

Nem preciso recorrer aos vários exemplos de mulheres assediadas em casa, na escola, no trabalho, preciso? A questão não é a localização da mulher. O grande problema é essa noção totalmente enganada de que o corpo feminino é público. De que é só um toque, só um puxão, só um beijo. De que o consentimento é uma farsa criada pra culpabilizar os pobres homens que, como todo mundo sabe, têm lá as suas necessidades.

Não podemos deixar a frequência dessas situações se tornarem argumento pra banalizá-las. Pelo contrário: O fato de que milhões de mulheres passam por isso deve servir de incentivo pra que a gente entenda que é uma causa pela qual vale a pena lutar, que é um quadro que precisa ser revertido. Esse tipo de caso não pode ser relativizado porque “ai todo mundo passa por isso”.

E por que todo mundo passa por isso? Por que a mulher não pode ter direito de ir e vir e de ter total autonomia sobre o próprio corpo? Soa aceitável isso? Que a gente precise se esconder, se privar, desviar, quando muitas vezes nem isso é suficiente?

Assédio não é normal. Não é aceitável, nem esperado, nem deve ser ignorado. Assédio é um crime. Um crime. Com todas as letras. E quem relativiza crime é tão criminoso quanto quem comete.

maiara e maraisa

Uma foto de Maiara e Maraisa só porque sim. Que mulheres ❤

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Educação sexual coletiva

[Essa é uma perspectiva centrada em relacionamentos heterossexuais porque achei que se encaixava mais com o padrão sexual heteronormativo]
“Então… isso foi sexo.”
 Um dia desses eu e uma amiga passamos a noite ouvindo músicas que eram famosas durante a nossa infância. Passamos por Rouge, KLB, Rebelde e Bruno e Marrone. Mas o que realmente ficou na minha cabeça foi uma música de Caju e Castanha. Lembro de ter visto muitas vezes a dupla se apresentar nesses programas de fim de semana, cantando sobre a semelhança da “mulher do amigo” com instrumentos musicais.
 A letra era engraçada e essa era a única coisa da qual eu me lembrava, até a ouvir novamente. E aí resolvi lançar o raio problematizador e falar sobre tudo que está errado não só com essa música, como com toda a educação sexual coletiva que recebemos da mídia.
 A primeira coisa que me incomoda é o conceito de mulher de alguém. Acho bizarro e quase assustador usar mulher como se a palavra denotasse um sentido de relacionamento e de posse. Não se fala do homem de alguém, nem de esposa e homem, ou de ex-homem quando há separação. Mas é sempre marido e mulher, ex-mulher e a mulher de fulano. É o tipo de coisa que acontece tanto que dificilmente paramos para analisar e perceber que é, no mínimo, estranho.
 E aí tem toda a objetificação da mulher durante a letra inteira. Isso já dá pra perceber logo de cara porque, ao falar sobre a sexualidade feminina, o homem é representado como protagonista e a mulher como “instrumento musical”, ou seja, um objeto inanimado que será usado de acordo com os desejos de quem o manuseia. Nem quero entrar no mérito de analisar cada uma das coisas que o cara propõe fazer com a mulher, mas só partindo dessa comparação fica fácil notar que tá tudo errado.
 Mas, isso não é tudo. Se fosse só uma música de sei lá quantos anos trás, tava tudo ótimo. O problema é que há várias letras que escutamos o dia todo que tem esse mesmo princípio: apresentar a mulher como objeto de desejo e o objetivo masculino de ter uma listinha com nomes femininos que servem como conquistas.
 O que assusta ainda mais é que sabemos o quanto a música entra na nossa cabeça. Uma coisa que Felipe Pena usa para provar a influência musical é comparar a dificuldade de resumir cinco livros precisamente – com o começo, meio e fim -, com a de cantar cinco músicas inteiras ou de sintetizar o que elas dizem. O arranjo musical torna muito mais fácil absorver as informações. Sendo assim, o que escutamos ao longo de nossas vidas tem influência na forma que pensamos.
 É claro que não é, necessariamente, um processo de alienação, porque podemos filtrar criticamente o que nos é útil e o que é dispensável, mas ainda assim essas composições funcionam como um reflexo cultural do que é pensado. Ninguém comporia uma música falando sobre embebedar mulheres afim de retribuições sexuais (ou seja: estupro) se não houvesse a cultura de fazer esse tipo de coisa.
 Além das músicas, ainda temos filmes, programas, revistas e regras implícitas que ditam essa postura sexual. Há produtos cujo único objetivo é vender o corpo feminino como uma mercadoria para satisfazer desejos sexuais. Há conceitos de que mulher é “para casar” e de que mulher é “para se divertir” sendo passados em rede nacional em tentativas falhas de fazer humor.
 É uma mão dupla. Ao mesmo tempo que se ensina aos homens que eles precisam ser “experientes” e que é da “natureza deles” serem seres sexuais compulsivos, justificando o adultério e enfatizando a masturbação, as mulheres aprendem que não podem ser puras demais ou serão chamadas de frígidas, mas também não podem expressar muito desejo sexual porque isso demonstra falta de caráter. Toda a criação do papel sexual feminino é voltada para agradar a um parceiro egocêntrico que está centrado no seu próprio prazer.
 Por isso tantas mulheres sexualmente frustradas, tanta mistificação em torno do orgasmo feminino e tantas travas inúteis que são colocadas. A mulher aprende que a primeira relação sexual vai doer, aprende que eventualmente vai ter que fingir o orgasmo, aprende que certas coisas só as mulheres que “não se dão o valor” fazem.
 É quase uma cultura de medo que se cria, o sexo visto como uma obrigação. E não é para ser assim. Não é para ter alguém cujas necessidades são colocadas em primeiro lugar ou a existência de um patamar elevado, é para ser algo mútuo, algo compartilhado.
 A sexualidade feminina não é uma lenda, não é uma invenção. É uma preocupação e é, especialmente, algo que precisa ser discutido e valorizado.

Vídeo: 10 termos feministas

Depois de um hiatus não planejado e causado por preguiça extrema, voltei com um vídeo que eu queria muito postar. Além de ter testado um novo tipo de thumbnail (essa foto que funciona como ~capa do vídeo~), um final com links para vídeos anteriores e a vinheta nova, vim falar sobre o meu tema favorito do universo: FEMINISMO!
 Separei dez termos que você possivelmente vai ver com frequência ao acompanhar blogs sobre o tema e que são úteis para entender mais ou menos como funciona o movimento. Tentei explicar da forma mais didática possível, usando o máximo de exemplos que consegui, então ficou relativamente longo, mas tá explicadinho e é isso que importa, né?

Todo dia é nosso dia

 Sempre fui muito chata com determinações impostas sem explicação convincente. Não entendia por que, enquanto meu irmão era judoca, eu não podia praticar o mesmo esporte. Não entendia por que certas brincadeira eram só de meninas ou só de meninos. Quando meu professor disse que era impossível contar até um milhão, comecei a contar um pouquinho todo dia pra provar que ele estava errado. Nunca descobri a resposta porque, depois de uns meses, cansei.
 Isso não quer dizer que, mesmo sendo de uma família/cidade/galáxia majoritariamente de direita, nasci sendo de esquerda, feminista e ativista. Na verdade, até fui de direita por um longo tempo, afirmando que “esse negócio de igualdade” impedia que as pessoas crescessem. Já disse que Bolsa Família e cotas eram propostas idiotas. Já fiz redação concordando com pena de morte. Discuti com o tal professor que falou da impossibilidade de contar até um milhão (um dos mais incríveis e pacientes professores do universo!) falando que o socialismo era uma utopia e que quem acreditava nisso era, no mínimo, muito iludido. E nem faz tanto tempo assim. 
 Conheci o feminismo no comecinho de 2013. Li um pouquinho e achei que era a coisa mais incrível do mundo. Até que descobri que as feministas eram a favor da legalização do aborto. Isso foi mencionado por um professor que as chamava de assassinas. E com razão, né? Porque essa era a ideia mais maluca que eu já tinha ouvido. Como assim liberdade feminina? Meu corpo, minhas regras coisíssima nenhuma. Achei uma palhaçada sem tamanho e parei de sequer ler sobre o assunto.
 Uns meses depois, encontrei um blog (o Escreva, Lola, Escreva) que falava de feminismo em mais áreas do que eu imaginava que fossem afetadas pelo machismo. Foi um choque pra mim, a garota que já tinha feito uma colega de classe chorar dizendo que ela era uma vadia e ia morrer sozinha (se você estiver lendo isso, me perdoe! Eu fui uma babaca!), que a ideia de que mulher tem que se “dar o respeito” era machista. Uéeee, mas não é assim que as coisas são no mundo?
 Perai, quer dizer que quem usa roupa curta não tá dando abertura pra assédio e estupro? Quer dizer que não existe esse negócio de ser feminina? Foi tudo uma invenção? É meio assustador descobrir que tudo em que você sempre acreditou era uma grande mentira do patriarcado criada justamente para oprimir. Ainda me levou um bom tempo para que eu superasse o nojo de menstruação e um bando de outras manias horríveis. Se alguém voltasse no tempo e me dissesse que, durante as eleições, eu estaria usando broche de Dilma e colando adesivo até na testa, eu ia questionar a sanidade da pessoa.
 A desconstrução não acaba nunca. Porque mesmo pra quem nunca achou que homossexualidade fosse pecado, há muitas coisas que nos foram impostas e que estão completamente erradas. Desconstrução de conceitos racistas, elitistas e de mais um monte de coisa que nem sabemos que é preconceito até que alguém grite na nossa cara. O feminismo foi, para mim, a abertura para isso. Considero o movimento como um divisor de águas na minha vida. Quem diria que um bando de mulheres revoltadas e reclamonas seriam capazes não só de fazer com que eu me tornasse uma delas, mas também de me mudar completamente?
 É para isso que o dia de hoje serve. Não para distribuir flores, chocolates e presentes. Não para sermos parabenizadas. Mas, para reforçarmos nossa luta. Para lembrarmos de quem luta diariamente para a conquista dos direitos que ainda nos faltam. Para agradecermos ao ativismo de internet que, apesar de ser considerado inferior ao do das pessoas que vão à rua, muda a vida de uma porção de gente diariamente.
 Para agradecer a quem faz marcha, a quem protesta, a quem grita. E a quem senta e explica, calmamente – ou nem tanto assim – como é que as coisas são. A quem tira nossas dúvidas, mesmo que elas soem muito primárias. A quem, mesmo sem paciência, repete mais e mais vezes o que é certo e o que é errado. A quem gasta o tempo escrevendo uma postagem gigantesca no Facebook ou em um blog problematizando algo.
 É um dia para lembrar de quem é assediada todo dia no caminho do trabalho. De quem sofre com violência doméstica. De quem foi assassinada. De quem já teve que enfiar uma agulha de crochê no útero para abortar o bebê de quem não pode cuidar. De quem se pesa várias vezes durante o dia e de quem vomita depois de cada refeição. De quem sofre com gaslighting. De quem tem é alvo de lesbofobia e de racismo. De quem tem que se submeter a acusações gordofóbicas.
 A nossa luta não acabou, não está nem perto do fim. A nossa luta continuará amanhã e depois e, provavelmente, por mais vários anos. A nossa luta acontece todos os dias.

Princípio da Smurffete e representatividade feminina

Esse texto é parte de uma série com os posts que escrevi para o meu blog antigo.

Você smurfou com a garota errada.
 É muito difícil que você nunca tenha ouvido falar dos Smurfs. Além do desenho dos anos 80, a franquia inclui dois filmes hollywoodianos e alguns jogos espalhados por toda a internet. As pequenas criaturinhas azuis representam (e nomeiam) o fenômeno notado por Katha Politt: O princípio da Smurfette.
 Smurfette é a única representante feminina da comunidade e é disso que o princípio se trata: o costume de que filmes, séries, livros e histórias e quadrinhos tenham apenas uma mulher. Muitas vezes, sexualizada e retratada com roupas justas e curtas, numa clara tentativa de agradar e atrair o público masculino com a sensual e indefesa personagem. O estereótipo de garota legal é normalmente seguido: ela é bonita, inteligente (mas não mais que o personagem por quem se apaixona) e nunca reclama – quando o faz, em seguida pede desculpas, mesmo que tivesse razão na briga -.
 A Smurfette em questão pode corresponder tanto a apenas uma personagem feminina, quanto a singularidade de um representante negro, homossexual ou pertencente a qualquer minoria. Basta parar pra observar os cartazes no cinema que a ideia vai ficar óbvia. A ideia dos roteiristas e autores é, mesmo que inconscientemente, garantir a representatividade, mas mantê-la ainda em papel secundário.
 O cinema vem mudando e nos presenteando com várias personagens femininas que, além de fortes, não estão lá com o papel de mãe/namorada/irmã, nem de forma sexualizada, mas ainda há muito o que melhorar. O público está cada vez mais crítico. Prova disso é o Teste de Bechdel, que determina que os filmes com representatividade feminina devem ter, no mínimo, duas mulheres, com nomes, que tenham uma cena em que conversem entre si sobre algo que não seja relacionado a homens. Apesar da margem de erro do teste, ele já é um sinal de que a audiência se tornou mais exigente.
 Não basta uma personagem feminina de fundo, pronta pra ajudar, queremos protagonistas inteligentes e independentes. Não dizem que a vida imita a arte? Está mais do que na hora da arte imitar a vida.